Anedota Tecnológica

Era 2013, eu vivia feliz com meu samsung corby pro de tecladinho físico qwerty e tela touch, com acesso Wap ao Facebook e Twitter e mandando SMS adoidada enquanto não chegava meia noite, já que a partir daí teria que pagar mais 1 real pra mandar minhas SMS até a meia noite seguinte. Eu vivia uma vida simples e confortável até que comecei a ouvir um som muito distinto e característico em qualquer lugar. Era um assobio breve… Na verdade, eram dois ou três assobios sobrepostos que eu não sabia dizer se era de uma ave ou de um ser humano. Esse som me perseguia insistentemente. Onde quer que eu fosse, se eu relaxasse um segundo, lá vinha o assobio me tirar a paz, e se eu tentasse prestar muita atenção pra identificar de onde vinha o som, ele simplesmente evaporava no ar. Às vezes, quando eu pulava de susto por conta do assobio sorrateiro logo vinha outro em seguida, como se estivesse escarnecendo de mim. E esse som estava em todos os lugares, nas escolas, nas ruas, nas praças, campos, construções. Onde eu estivesse, o assobio misterioso estava também. Eu já estava ficando maluca, achava que esse assobio era um chamado de outra dimensão que me solicitava, que um dia eu acordaria, uma mulher com tatuagem de coelho branco bateria na minha porta, me levaria pra uma festa onde um grupinho de cyberpunks me drogaria com uma pílula vermelha e eu acordaria horas depois, careca e pelada dentro de uma banheira de geleia e descobriria ser o messias desse mundo pós apocalíptico. Eu já sonhava com esse assobio e com o destino que ele me traria, cada noite um sonho e uma missão diferente. Destruir um anel, derrotar um bruxo das trevas, salvar uma galáxia de um governo tirânico… Até que eu descobri que eu não era a única que ouvia. Estava indo pra casa um dia, no biarticulado, dessa vez com companhia quando ouvi o meu assobio outra vez. Era o que eu precisava pra provar que a realidade não estava prestes a se desfazer enquanto um cara de óculos redondinho filosofaria sobre a minha desgraça. “Você ouviu isso??? Esse assobio??”.

“Ouvi”

Ouvi? Como assim ouvi? Eu acho que estava mais preparado pra qualquer um dos destinos de mangá shounen do que pro verbo ouvir conjugado na primeira pessoa, pretérito perfeito indicativo blablabla. “Como assim? Você sabe que som é esse?”

“Ah, é o som do WhatsApp”

WhatsApp? Então esse é o nome do reino ou dimensão paralela da qual eu serei heroína? Eu esperava um nome tipo “Dalahar” ou “Fon”, mas poderia me acostumar…

“É um aplicativo”

Ok… Tá… Pera. Aplicativo? De celular? Eu não fazia a mínima ideia do que eram e como funcionavam aplicativos de celular, só sabia que existia um deles era o instagram e minha irmã usava Instagram…

“É de mandar mensagem, tipo um msn no celular”

Hmm. E ele faz som de passarinho assim? Naquele momento eu teria achado mais fácil que um cara de óculos redondinho filosofasse sobre a minha desgraça, pois aquela conversa sobre playstore, Android e apps tava num nível muito mais surreal.

A realidade voltou a ser sólida e foi ali que pude ver que meu destino não era salvar um mundo ou universo paralelo, era só me tornar uma velhinha aposentada que não consegue usar o controle remoto e que confia mais no seu celular qwerty do que nessa tecnologia toda… E honestamente, tudo bem também. Salvar um mundo ou universo paralelo requer muita habilidade atlética de qualquer forma.

3 de maio de 2018

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tua boca é uma reta
teus lábios, descorados
falha de santo andré
que se afasta, ameaçadora
da mesma forma que
teus lábios se movem
vertendo sons que são veneno,
sons que são palavras
que ecoam nos meus nervos,
que fervem meu sangue,
que coram minha face nublada

É madrugada, e eu ouço tudo, mas não vejo nada
Deitada aqui, ouço a energia fluindo
através do USB que carrega meu celular
bem pertinho da minha orelha, um ruído marrom
Ouço também minha velha casa de madeira estalar,
meu pai rolar na cama no andar de cima,
se ajeitando, roncando…
ouço o som metálico de molas, ecoando dentro do meu colchão,
e reclamando do meu peso se acomodando sobre elas,
e o tictac do meu relógio de pulso na cabeceira
Lá fora ouço cães, grilos e quero-queros,
e com as minhas mãos produzo ruídos,
a digitar poemas com as pontas dos dedos
posso ouvir até mesmo o silêncio,
uma massa tão densa quanto a escuridão,
penetrando sólida nos meus ouvidos,
como miasma de uma noite abafada de lua nova.
Mas em todas essas noites, e em todas que virão,
Existem sons aos quais meus ouvidos são surdos,
Dentro de mim, o corpo em repouso ainda trabalha
e é quando ouço meu estômago roncar,
mas nunca ouço meu coração bater,
nem mesmo o sangue correr nas veias,
tal qual a água que ouço fluir nos canos.
E me pergunto por que é que sempre foi assim,
tão fácil de ouvir aquilo que há lá fora,
enquanto que aqui dentro de mim
só se ouve o silêncio
e o som da fome.

o corpo e o tempo

eu ainda vivo no mesmo lugar,
mudei três vezes na vida,
mas dependendo do ponto de vista
ainda vivo no mesmo lugar
e caminho pelas mesmas ruas
penso nas mesmas coisas, talvez
mas mudei todo meu guardarroupa,
inclusive me inteirei da nova ortografia,
ao ponto em que hoje estranho o ato
estafado de acentuar “idéias”.
passei a escrever poesia,
crônicas de personagens que não sou
meu computador queimou e comprei outro,
mas os dedos que batem nessas teclas
são os mesmos que assinaram
o contrato do meu primeiro estágio,
e dos outros vieram no lugar dele;
meu MBTI mudou duas vezes nesses anos,
desde que descobri o que era
INFJ, ENFJ, INFJ;
um movimento semelhante ao da gangorra
em que eu brincava anos atrás, no centro da cidade
talvez essa gangorra também
tenha sido substituída por uma nova
e assim fomos nos reinventando;
eu e a minha cidade, cada vez mais velha.
sei lá quantas vezes já troquei de escova de dentes,
de shampoo e sabonete, então…
meu cheiro já não é mais o mesmo
e penso que se alguém lembra de mim daquele jeito,
já nem pode imaginar quem me tornei,
até a raíz do cabelo que crescia em minha cabeça
há anos foi cortada, e trocada por alguns fios cinzentos,
e essa mesma cabeça, tingida tantas vezes,
se questiona diariamente se já entra em curto-circuito
ou se apresenta o mais pleno desenvolvimento cerebral.
tenho 21 anos e quatro meses,
e não sei mais se sou quem fui aos quatro meses e 21 dias,
ou aos quatro dias e 21 horas, ou aos 21 meses e quatro semanas,
já que nem o primeiro choro que chorei
é o mesmo que choro agora.

Pensamento intrusivo

Teu nome interrompeu meu raciocínio
bem no meio do nosso sexo,
formando-se como um mosaico em minha mente
e então todos os nossos sons
soavam como fonemas teus
clarões de ti cegavam-me
tentando reconstituir tua face
por detrás das pálpebras fechadas
e depois do gozo ele permaneceu
como uma sombra constante,
uma curiosidade crescente,
um prurido insistente
seu nome era tudo que eu sabia
mas sabê-lo era demais,
uma chaga que ardia em minhas lembranças
como se cravado em mim com fogo
e quando ela gozava na minha boca
antes do beijo vinha teu nome cuspido
no meio do caminho tinha uma *****
tinha uma ***** no meio do caminho
nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas obsessões tão fartas.

19/05/2016

Carta aos fantasmas litorâneos

A praia não mudou nada. Continua do mesmo jeito. Os mesmos prédios, nos mesmos lugares. Alguns a mais, mas nenhum a menos. O lixo, como sempre, só se acumula durante a temporada, mas a maré forte logo dá conta de embelezar novamente a costa paranaense, contrariando os turistas.

Pois é, a praia continua quase a mesma, mas o que ela é pra mim mudou bastante. Eu lembro das vezes em que descia a serra no carro do meu tio, aquela BMW sempre cheirando a couro. O cheiro chegava a dar dor de cabeça e o ar condicionado era tão forte nas nossas pernas que quando chegávamos ao destino estavam roxas. A música era sertaneja. Tocava “Noite sem Sono” de Bruno e Marrone diversas vezes, acompanhando a dança da vegetação serrana, formando minhas fantasias.

“Sonhos, planos e fantasias”. O nome do álbum que tocava dava o tom da minha imaginação. Esperava que um dia seria eu a dirigir a BMW e por mais que ainda não soubesse o significado disso, também teria uma esposa ao lado. Meu grande amor seria um amor de viagem, e nossos trajetos seriam menos ortodoxos. Pararíamos nas bancas para comprar banana e vinho dos moradores e desceríamos pela estrada da Graciosa, evitando pedágio e tomando banho de cachoeira, antecipando a satisfação do desejo pela água. Não estaríamos presas nas fronteiras do estado, menos ainda do país, e embora essa liberdade nos embriagasse, estaríamos sempre nós. Seria, enfim, a mistura idealista com a qual toda minha geração sonha, a ambiguidade de simultaneamente ter o mundo e ter a casa, de ter o voo e de ter o ninho.

Então os anos se passaram, e eu adquiri experiência. Já me julgava muito sábia nos meus 20 recém completos. As fantasias ainda se encontravam em algum lugar e a cada viagem pela estrada elas materializavam-se novamente. Até que conheci alguém. Um relacionamento improvável, como a maioria dos grandes romances, que também impulsionam determinadas predisposições que carregamos. Ainda assim, acreditei que seria apenas uma aventura física, somente mais uma parte da jornada. Se tivesse sido somente isso, não estaria escrevendo neste momento. Não demorou muito para que eu percebesse que aquela não era mais uma distração. Havia algo entre nós, o tal do fogo que arde sem se ver, a ferida que dói e não se sente. Depois dela, essas canções soaram diferente, embora nada nelas tenha mudado. Quem mudou eu fui. Ela me transformou, um amor litorâneo, que me impulsionava a viajar para aquele mesmo destino que me atiçava tantas vontades, e as vontades eu saciava em seus braços, no banho de mar, na rede, na cozinha, na cidade, na garupa da sua bicicleta, nos banhos gelados e nos banhos de caneca.

O caminho, na minha infância, era sempre o mais vivo, meditativo. Foi onde minhas pulsões se formaram, lá naquele banco cheirando a couro, naquele carro gelado. Mas nesse momento, os caminhos que eu fazia eram solitários. Ia sozinha e voltava sozinha, com ela apenas na mente, tentando prever quando estaríamos lado a lado na estrada, finalmente, da forma que esperava quando era embalada.

Pouco sabia eu, no entanto, que no fundo eu ainda não era tão diferente da menina que descia a serra com os tios. Estava cheia de certezas, mas eram certezas apenas. Impraticáveis, impalpáveis. Eu não era e ainda não sou dona de mim, e como a maioria dos romances, pereceríamos cedo ou tarde. Eu era o ponto A e ela o B, e a intersecção entre nós nos afastou. A intersecção que cruzei tantas vezes ficou cada vez maior. O que eram apenas 112 kms se tornou um muro de desentendimento. Todas as manhãs de segunda-feira se tornaram um motivo pra chorar a nossa despedida. E todo final de sexta-feira era um sacrifício a ser feito por um bem maior.

Em uma dessas segundas em que choramos, tudo ficou claro. Nosso amor era perfeito nos livros, mas complicado, e nosso inimigo era tudo aquilo que não fossemos nós. Percebi a relação entre distância e tempo, o significado de ano-luz. Não eram apenas quilômetros que nos separavam, mas também anos longos e decisivos, nos quais eu envelheceria ainda mais. Percebi que poderia me tornar duas pessoas diferentes no final dos caminhos interseccionados à minha frente. Poderia caminhar com dificuldade na corda bamba que éramos, satisfazendo a necessidade juvenil de adrenalina, e poderia também por os pés no chão e caminhar devagar, com equilíbrio pleno, porém sozinha.

Me colidi com a verdade no dia 13 de junho, e chorei no caminho de volta. Chorei sabendo que nada mais seria igual. E como em todas as vezes que chorei, senti vergonha por estar chorando. Coloquei meus óculos escuros dentro do ônibus, encarei a janela, tentando fugir dos olhares dos passageiros, e deixei fluir as lágrimas que só a mata virgem testemunhou. Dessa forma, aquela mesma criança que descia a serra com tantos sonhos, agora subia cheia de angústia, com a bagagem lotada de fantasmas.

Eu não escrevo para vocês, fantasmas, para falar sobre amor. Esse não é um texto sobre amor. A dor de perder meu primeiro amor não foi tão grande quanto a de acordar… Talvez acordar não seja a palavra certa, é uma metáfora suave demais. Acordar presume estar descansada, mas no dia 13 eu senti meus pulmões rasgando por dentro com a primeira inspiração de um ar pesado, prenhe de maturidade, e com ela veio o choro. E a juventude era o médico que me segurava pelos calcanhares, açoitando minhas nádegas nuas. Nasci de um parto induzido à força, me afoguei no líquido amniótico e meus olhos de recém-nascido ainda não se acostumaram a enxergar o mundo.

Não tenho mais a proteção das certezas. Estou suscetível a todas as influências do mundo e minha pele toda é uma chaga aberta. Esse é o significado daquilo que disse a ela, na última vez que dormimos juntas. Quando estou com você, não tenho dúvidas. Mas agora não estamos mais juntas e, por isso, só me resta o desconhecido.

O Fabuloso Circo Itinerante dos Poetas Que Se Expõem Demais

Leitores e leitoras,
respeitável público pagante
esta voz que vos fala
tem prazer em anunciar
que o show deve continuar
para acalentar suas mazelas
nas desgraças de outrem
Nesta noite especial
um poema de autopiedade,
atração principal
jamais vista na cidade
cheguem mais perto,
tomem seus lugares,
pro alívio de sua alma,
um eu lírico vai sofrer
escrever e atuar
seus sentimentos em clichês
facilmente identificáveis
Com vocês, no picadeiro
ela,
com suas metáforas,
seus problemas de coluna,
em um metro e sessenta e poucos
de pura decadência harmônica
ponto wordpress ponto com
A INCRÍVEL, A ABOMINÁVEL
VÍTIMA DA HUMANIDADE,
A ENGOLIDORA DE SAPOS!!

[segue aplausos]